Os sábios não chamam de forte o grilhão feito de ferro, madeira ou fibra. As joias, as pedras preciosas, os filhos e as esposas são grilhões mais fortes. Estes grilhões arrastam para baixo, e embora possam ser vencidos, é difícil fazer com que deixem de existir. Tendo destruído tais grilhões, o homem deve renunciar ao mundo, deve estar livre do desejo; e tendo abandonado os prazeres dos sentidos, ele não deve olhar para trás.
Esse não é um grilhão forte, dizem os sábios, feito de ferro, madeira ou cânhamo. Mas a paixão e o desejo por jóias e ornamentos, filhos e esposas – isso, dizem eles, é um grilhão muito mais forte, que puxa a pessoa para baixo e, embora aparentemente solto, é difícil de remover. Isso também foi interrompido pelos sábios. Abrindo mão do prazer sensual, e sem qualquer desejo, renunciam ao mundo.

Comentário profundo

Estes dois versos foram ensinados pelo Buda no Monastério Jetavana em conexão com uma prisão. Um dia, criminosos que cometeram crimes graves, como roubo, assassinato e violência sexual, foram apresentados ao rei Pasenadi. Eles estavam fortemente amarrados, e quando os monges viram os prisioneiros sofrendo em correntes, troncos e cordas, eles foram até o Buda e perguntaram se havia alguma escravidão mais forte do que esta. O Buda respondeu que tais laços não são verdadeiramente fortes. Os laços de desejo, ilusão, apego e paixão são muito mais fortes, pois prendem os seres ao sofrimento durante muitas vidas. No entanto, os sábios são capazes de cortar até mesmo esses laços. O Buda então contou uma história de uma de suas vidas passadas. Há muito tempo atrás, quando o Rei Brahmadatra governava em Benares, o Bodhisatva nasceu em uma família pobre. Depois que seu pai morreu, ele trabalhou para sustentar sua mãe. Mais tarde ele se casou e, após o falecimento de sua mãe, sua esposa engravidou sem que ele soubesse. Desejando renunciar à vida doméstica, ele contou sua intenção à esposa, mas ela revelou sua gravidez e pediu-lhe que ficasse até o nascimento do filho. Após o nascimento, ela pediu novamente que ele permanecesse até o desmame da criança. Durante esse tempo ela engravidou novamente. Vendo que o apego mundano continuaria sem fim, ele saiu de casa secretamente à noite. Embora tenha sido parado pelos guardas, ele finalmente realizou seu desejo e foi para o Himalaia para viver como eremita. Em pouco tempo ele alcançou poderes espirituais e estados superiores. Ele refletiu que havia quebrado o poderoso vínculo do desejo sensual e do apego à esposa e aos filhos. Tendo contado esta história, o Buda recitou os versos para esclarecer o significado. Esses versículos mostram que, para o sábio, nenhuma cadeia mundana é mais forte do que o apego à família, às posses e ao desejo sensual. Embora invisível, esse vínculo tem um poder tremendo. Liga os seres de vida em vida e dificulta a libertação. Muitas pessoas poderosas foram derrotadas não por exércitos ou armas, mas pelo desejo e pelo apego. Até mesmo reis, governantes e heróis podem perder a dignidade, a fortuna e a vida quando dominados pelo desejo sensual. Os ensinamentos do Buda lembram-nos que o apego ao cônjuge, aos filhos, ao lar e aos bens pode tornar-se uma prisão mais difícil de sair do que uma prisão real. Uma prisão pode um dia abrir as portas, mas o desejo não nos liberta, a menos que a sabedoria o elimine. Na história, o Bodhisatva achou difícil a renúncia, mas devido às profundas raízes espirituais cultivadas ao longo de muitas vidas, ele desenvolveu a firme resolução de deixar para trás a escravidão da afeição mundana e trilhar o caminho para a liberdade.

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