Se você vê um homem que detecta erros e condena o que merece ser condenado, siga esse sábio. Valorize-o como alguém que revela tesouros ocultos. Ele será amado pelos bons, e será odiado pelos maus. Deixe que tal pessoa faça alertas e repreensões, que dê instruções e proíba o que é impróprio.
Se alguém encontrar um homem que aponta falhas e reprova, deixe-o seguir uma pessoa tão sábia e sagaz como alguém seguiria um guia para um tesouro escondido. É sempre melhor, e nunca pior, cultivar tal associação.

Comentário profundo

Nos tempos antigos, os buscadores espirituais e os discípulos valorizavam muito aqueles que corrigiam seus erros. Em vez de ficarem irritados, eles se sentiram profundamente gratos. Se os praticantes de outras tradições espirituais pudessem comportar-se com tal humildade, quanto mais os praticantes budistas – especialmente aqueles que renunciaram à vida familiar – deveriam incorporar esta virtude? O Buda ensinou que para alcançar a iluminação perfeita, é preciso alcançar tanto a auto-iluminação quanto a iluminação dos outros. Para despertar, é preciso reconhecer as próprias falhas. No entanto, assim como não podemos ver a sujeira em nosso rosto sem um espelho, muitas vezes precisamos de mentores e amigos para apontar nossas deficiências. Os seres humanos são imperfeitos; nossas mentes abrigam tendências benéficas e prejudiciais, e as prejudiciais geralmente dominam. Portanto, cometer erros é inevitável. Ter um amigo ou professor sábio que esteja disposto a nos reprovar e guiar é uma tremenda bênção. O Buda nos aconselhou a nos associarmos com pessoas sábias que apontam nossas falhas e imperfeições. Eles fazem isso por compaixão genuína, querendo que nos tornemos melhores e mais úteis tanto para a comunidade espiritual como para o mundo. Aqueles que apontam nossas falhas são verdadeiros amigos, não adversários. Se alguém age por maldade, a sua crítica não é construtiva e devemos manter uma distância respeitosa dele. Quando corrigidos por uma pessoa sábia, devemos aceitar com alegria o feedback e alterar os nossos caminhos, vendo-os como um verdadeiro benfeitor espiritual. Reconhecer os próprios erros e arrepender-se é um espírito nobre no Budismo. Vivendo sob a influência da consciência cármica, cometemos muitos erros. Se nos recusarmos a reconhecer e a nos arrepender, não poderemos progredir. O Buda instituiu a prática do arrependimento (samatha/confissão) precisamente por esta razão. Assim como uma roupa manchada fica limpa quando lavada, o Buda ensinou que se uma pessoa se arrepender sinceramente, os seus erros passados ​​serão purificados. Uma pessoa que nunca errou e uma pessoa que errou, mas se corrige sinceramente, possuem igual força espiritual. Além disso, o Buda comparou uma pessoa que aponta as nossas falhas a alguém que nos mostra um tesouro escondido. Os benfeitores espirituais (Kalyanamitra) vêm em muitas formas: o Buda, os nossos professores, os nossos companheiros espirituais e até mesmo aqueles que apoiam a nossa prática externamente. Os benfeitores espirituais finais são os Budas e os Patriarcas, que apontam o tesouro inestimável inerente a cada um de nós – a nossa verdadeira natureza – que geralmente é obscurecida pela ignorância. Professores monásticos e praticantes seniores compartilham conosco sua sabedoria experiencial. Até apoiadores externos nos ajudam a progredir no caminho. Devemos estar profundamente gratos a todos eles, pois é através da sua orientação em relação às nossas imperfeições ocultas que podemos avançar. A raiz de todos os erros é a ignorância (avidya), que leva a ações prejudiciais e ao sofrimento. Para nos salvar de cair em sofrimentos mais profundos, os benfeitores espirituais apontam as causas profundas de nossas falhas para que possamos transformar nosso comportamento e colher os frutos do caminho. Não há bondade maior do que esta. Este versículo nos fornece um método claro para o progresso espiritual, desde lidar com pequenas falhas até abordar as maiores, do superficial ao profundo. Exorta-nos a olhar para dentro e refletir honestamente. Sem esta reflexão interior, estaremos apenas plantando sementes superficiais de mérito, em vez de praticarmos verdadeiramente. Concluindo, devemos sempre ser gratos àqueles que nos corrigem, independentemente da escala da falha, e devemos permanecer próximos de amigos virtuosos para desbloquear o inestimável tesouro interior que há muito está enterrado sob a lama espessa da ignorância e das impurezas.

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