Eu chamo de brâmane aquele para quem não há nem esta margem nem aquela margem. Destemido e livre, ele está além de ambas.
Aquele para quem não existe esta margem nem a outra margem, nem ambas, aquele que está livre de preocupações e sem restrições – a ele eu chamo um homem santo.

Comentário profundo

Este verso Dhammapada foi ensinado pelo Buda no Mosteiro Jetavana, a respeito de Mara, o Maligno. De acordo com a história, “Um dia, Mara disfarçou-se e aproximou-se do Buda, perguntando: 'Venerável Senhor, o senhor fala frequentemente da 'margem mais distante'. Por favor, diga-me, qual é a outra margem? O Buda, sabendo que era Mara, disse: 'Ó Maligno, o que você tem a ver com a outra margem? Somente aquele que escapou do desejo pode alcançá-lo.'" (Extraído de Dhammapada Stories, Vol. III, p. 326). Neste verso, o Buda nos ensina a não deixar a mente ficar presa em dois extremos: passado e futuro. Estas são duas prisões que nos prendem constantemente. "Nem a outra margem nem esta margem, ambas as margens são irreais." Esta margem e aquela margem são conceitos meramente relativos e fabricados. O importante para um praticante é transcender essa estrutura conceitual dualista. Muitas vezes ficamos presos em rótulos conceituais. É como alguém que se agarra ao dedo que aponta para a lua, esquecendo-se da própria lua. Tanto o dedo quanto a lua são apenas rótulos conceituais fabricados. Em essência, eles estão vazios. Durante muito tempo fomos enganados por palavras e letras. É como a história de um caçador perdido na floresta, procurando incessantemente uma saída. Ele vagou até a noite sem encontrar uma saída. De repente, ele viu uma grande placa num portão que dizia: 'Cuidado com cães ferozes'. Ele pensou consigo mesmo: é melhor entrar e enfrentar cães ferozes do que ser comido por feras selvagens. Além disso, mesmo os cães ferozes têm donos. Pensando assim, ele entrou. Ele estava apavorado, mas não tinha outra saída. Depois de alguns passos, ele viu uma placa ainda maior: 'CUIDADO COM CÃES FEROZES'. Seu coração batia forte como se fosse saltar. Mas ele cerrou os dentes e continuou. Então ele encontrou um cachorrinho parado ao lado de seu dono. Surpreso, perguntou ao dono: 'Senhor, onde estão os cães ferozes?' 'Não existem cães ferozes. Este é meu único cachorro. 'Um cachorro tão pequeno - como poderia impedir alguém de entrar?' 'Você está completamente enganado. Embora este cão não consiga impedir ninguém, esse sinal é mais que suficiente para manter estranhos afastados. Você entende?' O caçador ficou pasmo. Portanto, as pessoas não têm medo de cães ferozes, mas sim da placa que diz 'CUIDADO COM CÃES FEROZES'. Que absurdo! As pessoas estão iludidas, confusas, sufocadas por nomes e rótulos vazios. Imagine que em um cinema todos estão absortos em um filme. De repente, alguém grita: 'Fogo! Fogo!' Em pânico, a multidão corre para escapar. No entanto, na realidade, não há fogo. As pessoas vivem habitualmente pela inércia da linguagem, fortemente apegadas a palavras e nomes fabricados. Daí surgem inúmeros conflitos trágicos e destruição mútua, tudo devido ao apego a rótulos vazios. Toda a humanidade hoje é assim. No Despertar da Fé, isto é chamado de “apegar-se à característica dos nomes” – agarrar-se à aparência dos nomes e das palavras quando a sua essência não é absolutamente nada. Na história acima, o Buda disse diretamente a Mara que não sabia nada sobre a outra margem. Nem mesmo entendendo esta margem, como ele poderia entender a margem mais distante? Então, o que é esta costa? E qual é a margem mais distante? 'Esta margem' refere-se às seis bases dos sentidos; 'a margem mais distante' refere-se aos seis objetos dos sentidos. Quando as seis bases dos sentidos entram em contato com os seis objetos dos sentidos sem ficarem presas, sem dar origem ao apego ou ao apego, sem serem contaminadas pelos objetos dos sentidos – nesse momento a pessoa transcendeu ambas as margens, o que naturalmente significa libertação, Nibbana aqui e agora. Esse é o endereço permanente: 'agora e aqui'. Como Mara poderia conseguir isso? Por isso o Buda disse: 'Somente aquele que escapou do desejo pode alcançá-lo.'

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