Da cobiça surge o sofrimento. Da cobiça surge o medo. Não há sofrimento para aquele que está livre da cobiça. De onde, então, poderia surgir o medo?
Do desejo surge a tristeza, do desejo surge o medo. Para aquele que está totalmente livre do desejo, não há sofrimento; de onde então o medo?

Comentário profundo

Este verso foi ensinado pelo Buda no Mosteiro Jetavana e diz respeito à história de um homem brâmane. De acordo com o relato, havia um brâmane que tinha opiniões erradas e passava os dias cultivando nos campos. Quando encontrou o Buda, ele não demonstrou respeito nem o cumprimentou adequadamente. Observando isso, o Buda perguntou-lhe: 'Brâmane, o que você está fazendo?' O homem respondeu, 'Estou preparando a terra, Gotama.' Essa troca ocorria diversas vezes sempre que o Buda passava, com o brâmane respondendo de acordo com as perguntas feitas. Com o tempo, após repetidos diálogos, o brâmane desenvolveu afeição pelo Buda e tornou-se seu amigo. Ele até prometeu que quando sua colheita de arroz amadurecesse, ele dividiria uma porção com o Buda. Infelizmente, antes da colheita, uma tempestade destruiu completamente os seus campos, não deixando nem um único talo de arroz. Atormentado, ele se deitou, sem comer nem falar, triste por ter quebrado sua promessa ao Buda. Sabendo disso, o Buda foi para sua casa, onde sua família explicou sua tristeza por não ter cumprido sua promessa. Aproveitando esta oportunidade, o Buda o aconselhou e então proferiu o verso. Esta história destaca o caráter admirável do brâmane. Inicialmente desrespeitoso, ele foi gradualmente atraído para o Buda através de um envolvimento compassivo, ilustrando os meios hábeis de ensinar do Buda de acordo com a capacidade de cada pessoa. Quando ele fez a promessa de compartilhar a colheita, ele realmente pretendia cumpri-la, e sua tristeza não foi pela colheita perdida, mas por quebrar uma palavra dada ao Buda. Esta integridade, mesmo como simples agricultor, reflete uma rara virtude moral. Exemplos históricos como o do jovem Gandhi demonstram uma consciência semelhante: depois de cometer um erro, sentiu intenso remorso e procurou corrigi-lo, honrando a sua promessa daquele momento em diante. Na prática budista, os votos feitos antes da Jóia Tríplice são compromissos igualmente sérios. Porém, na vida cotidiana, pode-se esquecer esses votos em meio a lutas, causando transgressões sem consciência ou com racionalizações. O Buda compreendeu a tristeza do Brâmane e visitou-o para consolá-lo e guiá-lo. A sua presença por si só aliviou toda a preocupação e tristeza, mostrando que a principal fonte do medo e da ansiedade humana é o apego a si mesmo. Todo sofrimento mundano surge do apego excessivo a si mesmo, do desejo egoísta, do desejo de possuir ou dominar. Ao ensinar repetidamente sobre o desejo e o apego, o Buda enfatiza o seu papel central no sofrimento, sublinhando a importância da consciência e da eliminação do desejo. O caminho não é lutar ou suprimir o desejo, pois a própria supressão se torna desejo. Em vez disso, deve-se reconhecê-lo e observá-lo atentamente. A consciência difere da repressão; tentar esmagar um pensamento emergente, como a raiva, não restaura o equilíbrio. O método mais eficaz é iluminá-lo com atenção plena, abraçando a emoção como uma mãe conforta um filho que chora. Através da atenção plena, a emoção diminui gradualmente, dissipando-se sem causar mais sofrimento. Permanecer presente, focar na respiração e observar com consciência silenciosa permite recuperar a equanimidade. Esta abordagem prática demonstra o poder transformador da atenção plena ao lidar com desejos, apegos e emoções.

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