Aquele que abandona a luxúria, o ódio e a loucura, que adquire verdadeiro conhecimento e uma mente serena, que não tem cobiça nesse mundo nem em qualquer outro, e que aplica em si mesmo os ensinamentos dos textos sagrados que recita, ainda que sejam poucos textos – tal pessoa participa das bênçãos da Vida Correta. (20) A ATENÇÃO [Nota:] O termo original “Appamada” pode ser traduzido de várias formas: Cuidado, Diligência, Seriedade, Atenção, Reflexão, Concentração mental, a Condição de um ser Desperto, Vigilância, Zelo. A tradução do texto chinês por Samuel Beal o apresenta como “Ausência de Cuidado” (“Ausência de Pensamento”). O “Manual of Buddhist Terms and Doctrines” afirma que o termo implica não-relaxamento, não-cansaço, zelo, e que o conceito é visto como o alicerce de todo progresso. A obra cita Anguttara-Nikaya, X.15: “Assim como todas as pegadas dos seres vivos são superadas pelas pegadas de um elefante, e esta pegada é considerada a mais poderosa, assim também todas as qualidades meritórias têm como seu alicerce o zelo, e o zelo é considerado a mais poderosa destas qualidades.”
Embora ele recite pouco os textos sagrados, mas coloque o Ensinamento em prática, abandonando a luxúria, o ódio e a ilusão, com verdadeira sabedoria e mente emancipada, não se apegando a nada deste ou de qualquer outro mundo - ele de fato participa das bênçãos de uma vida santa.

Comentário profundo

O propósito de recitar os ensinamentos do Buda é compreender o seu significado profundo e aplicá-los na prática diária; só então traz benefícios. Recitar os sutras extensivamente, mas com a mente distraída, ou simplesmente fora da rotina, não traz nenhum benefício verdadeiro e pode até ter um efeito adverso. Muitos praticantes concentram-se apenas na quantidade de recitações para obter mérito, contando o número de sutras lidos. Quanto mais recitam, mais se sentem superiores aos outros, o que gera arrogância. Na história Zen, há uma famosa história de um monge que foi prestar homenagem a um grande mestre Zen. Ao se curvar, a cabeça do monge não tocou o chão. O mestre o repreendeu, perguntando que grande conquista ele estava abrigando para deixá-lo tão orgulhoso. O monge respondeu orgulhosamente que havia recitado um sutra importante três mil vezes. O mestre então lhe ensinou uma lição profunda: recitar textos sem compreender sua essência e abrir mão do orgulho é apenas perseguir sons. A verdadeira prática é iluminar a mente. Percebendo seu erro, o monge compreendeu que sem compreender a verdade última, recitar milhares de vezes é inútil. Se alguém recita sutras apenas com a boca, sem praticar genuinamente os ensinamentos, é uma recitação vazia. Tal pessoa é como um vaqueiro contratado que apenas conta as vacas para o dono, mas nunca prova o seu leite. Ou, em termos modernos, como um caixa de banco que conta dinheiro o dia todo, mas não possui nada; eles recebem apenas um salário miserável pelo seu trabalho. Por outro lado, mesmo que não recitemos muitos sutras, mas apliquemos diligente e estritamente os ensinamentos fundamentais do Buda em nossas vidas diárias, isso será suficiente para a libertação. O versículo 20 explica claramente o verdadeiro benefício da recitação. O praticante deve praticar de acordo com os ensinamentos. Se alguém apenas recitar – como se estivesse tentando ganhar mérito ou recitar para o Buda ouvir – mas não praticar, uma vida inteira de recitação não trará nenhum benefício. Alguns recitam desde a juventude até a velhice, mas seus três venenos (ganância, raiva e ignorância) permanecem inteiramente intactos. Por que? Porque o Buda nos ensinou a recitar para que possamos compreender e erradicar a ganância, a raiva e a ignorância, e não para implorar por bênçãos. É como um doente que recebe uma receita médica; eles devem comprar e tomar o remédio para serem curados. Se ficarem com a receita e lerem o dia todo sem tomar o remédio, não podem culpar o médico por não melhorar! Mais absurdo ainda seria ler a receita em voz alta para o médico, na esperança de agradá-lo. O médico apenas pensaria que o paciente é tolo. Se não tivermos cuidado, agimos como aquele paciente tolo. Pegamos os sutras falados pelo Buda e os cantamos de volta para Ele, às vezes até treinando nossas vozes para soarem musicais, pensando que o Buda nos elogiará. O Buda só sentiria pena de nós! Esses dois versículos são um profundo alerta em relação ao estudo e recitação das escrituras. O Buda ensinou claramente que tipo de recitação é benéfica para a prática espiritual e qual não é. O resto depende da nossa aplicação. Portanto, ao recitar, devemos ler devagar e com clareza, refletindo sobre cada palavra para compreender os ensinamentos. Se houver algo que não entendemos, devemos procurar orientação de amigos espirituais conhecedores. Depois disso, devemos nos esforçar para aplicá-lo em nossa vida diária. Só então obteremos benefícios reais e seremos verdadeiramente alguém que sabe recitar sutras. Para os monásticos que recitam em uma congregação, são usados ​​instrumentos para manter o ritmo, mas o princípio central permanece o mesmo. A ênfase aqui está na essência de recitar de acordo com o Dharma versus meramente seguir rituais sem compreensão.

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