Chamo de brâmane aquele que conhece suas vidas anteriores, que conhece céu e inferno, que alcançou o final dos renascimentos, que é um sábio de perfeito conhecimento e fez tudo o que deve ser feito. (423) (Final do “Dhammapada”) Ensaio: Uma Visão Atual do Pensamento de Buddha O príncipe Sidarta, chamado de Gautama por sua família e de Buddha − “o iluminado” − por seus discípulos, nasceu no ano 567 antes da era cristã, como filho do governante de um pequeno reino indiano. Sua vida é bem conhecida dos leitores de “A Luz da Ásia”, de Edwin Arnold 37 , e também está descrita em muitas outras obras. Não a repetiremos aqui mas, ao invés disso, tentaremos colocar o trabalho deste grande homem no contexto do pensamento religioso e filosófico do mundo. Em primeiro lugar, a afinidade sentida pelos ocidentais em relação a Buddha é maior que a sentida por qualquer outro personagem das religiões orientais. Os cristãos reconhecem a ética de Jesus nos preceitos budistas. Os pensadores ocidentais, para quem a ciência tem sido o seu principal guia, sentem que Buddha compartilhava a sua própria desconfiança em relação ao fanatismo e à crença sem sentido crítico. Na obra “Outline of History”, de H.G. Wells, por exemplo, Buddha recebe a admiração irrestrita do autor como um dos maiores homens do mundo, e seguramente como o maior líder religioso. Mais recentemente, vários ensaístas ocidentais têm assinalado que nos ensinamentos de Buddha encontramos um enfoque dos problemas da vida que não viola de modo algum o espírito científico. Parece provável que, no futuro, este interesse em Buddha continue crescendo. Especialmente se levarmos em conta 37 Obra publicada pela editora Pensamento, SP, 192 pp. (NT) 48 que os psicólogos modernos identificam no ensinamento de Buddha muitas percepções que antecipam suas próprias descobertas em mais de dois mil anos. 38 Buddha é normalmente considerado como um grande reformador religioso. Certamente ele foi um reformador; mas ele não deve ser considerado como alguém que abandonou completamente a filosofia religiosa na qual foi instruído quando jovem. Mais precisamente, ele foi alguém que purificou e resgatou a religião dos hindus, e, no contexto da religião hindu, ele próprio é um personagem de importância cosmológica. No hinduísmo, afirma-se que todo o universo está permeado pelo Espírito Supremo, Brahman, que é Tudo e está em Tudo. Como Henry Morley diz em sua Introdução à “Hitopadesa”39 de Charles Wilkins: Ele é o supremo Brahman, que criou o mundo através de três manifestações tiradas de si mesmo, e cujos nomes são Brahmá, Vishnu e Shiva, originalmente unidos em uma essência, de modo que “o Grande Ser” se tornou conhecido como uma Pessoa e três deuses. Brahmá representa a criação, Vishnu a preservação, e Shiva a destruição. De Vishnu, o Preservador, houve nove Avatares ou Encarnações. Os seis primeiros ocorrem na era de ouro do mundo. O sétimo veio como Rama, o oitavo como Krishna, o nono como Buddha. O décimo, no qual ele aparecerá como um cavalo branco, ainda é esperado. Em seu último avatar, como Buddha, Vishnu promoveu o ceticismo para que os gigantes destituídos de fé pudessem cessar de obter através da oração os poderes que eles usavam erradamente. Seja qual for o significado desta explicação simbólica do “ceticismo” de Buddha, e sejam quais forem os “gigantes” desta narrativa − seres sobrenaturais ou físicos nucleares, e os governos que os empregam; o leitor deve decidir por si mesmo −, a influência de Buddha, em seu tempo e em todas as gerações depois dele, tem tido, crescentemente e em todo o mundo, efeitos irrestritamente benéficos. Depois de visitar o famoso templo budista de Borobudur, em Java, o viajante e erudito inglês G. Lowes Dickinson conta como a história da vida de Buddha é descrita por imagens esculpidas em alto-relevo nas paredes do templo. Dickinson fala da qualidade da vida deste homem − o mesmo homem que se, segundo um outro inglês, Sir Edwin Arnold, “suavizou toda a Ásia”: Vemos a criança recém-nascida com seus pés sobre flores de lótus. Vemos o encontro fatal com a pobreza, a doença e a morte. Vemos a renúncia, a 38 Sobre a confluência entre Psicologia e Budismo, veja por exemplo a obra “Zen-Budismo e Psicanálise”, de D.T. Suzuki, Erich Fromm e Richard de Martino, Ed. Cultrix, SP, copyright 1960 by Erich Fromm, 195 pp. (NT) 39 “Hitopadesa” – Literalmente, “Bom Conselho”. A obra é um clássico hinduísta, uma coleção de contos e fábulas éticas. (NT) 49 estadia na selva, a iluminação sob a árvore Bo, a pregação da Verdade. E todo este evangelho esculpido parece significar para nós, mais do que os livros dos eruditos, o que o budismo realmente significou para a massa dos seus seguidores. Seguramente ele não significou a negação da alma ou de Deus, mas aquele impulso ardente de piedade e amor que ainda pulsa nestas imagens humanas. Não significou a esperança ou o desejo de extinção, mas o encantador sonho de mil vidas, passadas e futuras, sob muitas formas, em muitas condições, e com muitos diversos destinos. O pessimismo do mestre, assim como a sua alta filosofia, dificilmente alcançou a mente ou o coração do povo. Toda a história do budismo, de fato, mostra que isso não ocorreu e não ocorre. O que chegou ao povo foi o Buddha como santo e como o amigo dos animais e dos homens. E foi este amor que fluiu em grande quantidade sobre o mundo, deixando por onde passava, na literatura e na arte, em pinturas de flores ou montanhas, em fábulas, poemas e contos, os registros da sua influência calorosa e humanizadora. (“Appearances”, pp. 41- 42.) A figura austera de Buddha pode ter-se espalhado mais amplamente do que Dickinson imaginou. Quando ela chegou aos Estados Unidos através da obra “A Luz da Ásia”, de Edwin Arnold, ela fez com que Lafcadio Hearn, aquele poeta entre os escritores, predissesse que “o budismo, sob alguma forma esotérica, pode revelar-se como a religião do futuro”. Oliver Wendell Holmes dedicou 26 páginas ao poema de Edwin Arnold em uma revista contemporânea, e muitos milhares de pessoas, desde então, foram profundamente inspirados pela história do príncipe que tornou-se um salvador da humanidade. Enquanto isso, a ética do budismo capturava até mesmo os corações de eminentes cristãos, fazendo com que o bispo Milman afirmasse: “Entre os pagões precursores da Verdade, sinto cada vez mais que Sakiamuni é o mais próximo, por suas características e seus efeitos, a Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida”. E o dr. Inman, autor da obra “Ancient Faith and Modern” (“A Fé Antiga e a Fé Moderna”), escreveu: Falo com sóbria seriedade quando digo que, depois de quarenta anos de experiência entre aqueles que professam o cristianismo e aqueles que proclamam (......) de modo mais ou menos silencioso a sua discordância com ele, tenho observado uma virtude e uma moralidade mais genuínas entre os últimos do que entre os primeiros (......). Conheço pessoalmente muitos cristãos, pessoas piedosas, a quem eu respeito e admiro, e talvez eu ficasse honrado por seguir o seu exemplo ou igualar-me a eles. Mas eles merecem as bênçãos dadas a eles, em consequência do seu bom senso, tendo ignorado a doutrina da fé até certo ponto, e tendo cultivado a prática de boas obras (......). Na minha avaliação, os cristãos mais elogiáveis que conheço são uma 50 espécie de budistas, embora provavelmente nenhum deles tenha jamais ouvido falar de Sidarta. Eticamente, portanto, os ensinamentos de Gautama Buddha não têm rival, exceto quando se vê o mesmo ensinamento sob outra forma e conhecido por outro nome. Desde o ponto de vista científico, um caráter igualmente único parece predominar. Sarvepalli Radhakrishnan, o conhecido erudito e historiador da filosofia indiana, destacou (na sua obra “Indian Philosophy”) que o budismo dos primeiros tempos “em suas ideias fundamentais e espírito essencial (......) é notavelmente próximo (......) do pensamento científico avançado do século 19”. O pessimismo alemão de Schopenhauer e de Hartmann, diz o dr. Radhakrishnan, tem sido qualificado como “pouco mais do que budismo popularizado”, e ele acrescenta que “o budismo é uma esplêndida profecia do evolucionismo criativo de Bergson”. Há outros paralelos entre a visão de Buddha e o surgimento do pensamento científico moderno. A religião dominante durante a vida de Buddha estava ficando embrutecida por intermináveis polêmicas metafísicas. De acordo com Rhys Davids, havia “62 teorias dominantes no tempo de Gautama Buddha”. Ele foi, portanto, tanto um instrutor quanto um iconoclasta, e também quis colocar um fim à crueldade da religião antropomórfica. Na descrição de Radhakrishnan: Muito prejuízo é causado para a natureza moral do homem devido a uma crença supersticiosa em Deus. Muitos bons homens fazem más ações acreditando que têm a autorização divina para isso. A quantidade de maldade que resultou no mundo, a partir da confusão entre moralidade e religião, é algo que está além de toda descrição. Abraão recebe a ordem de sacrificar seu filho, e Saul é chamado a massacrar a sangue frio os seus cativos. Os pontos de vista que se estabeleceram sob o nome de religião, e que, predominando até aquele momento, quase extinguiam toda centelha de vigor espiritual, credenciavam Buddha para os que possuíam uma compreensão mais rápida. Os céticos sobre esta teoria não necessitam ser morais. Enquanto a moralidade for baseada em uma ordem divina transmitida miraculosamente, cada descoberta da ciência e cada desenvolvimento do pensamento tenderá a destruir a base da moral. Os que têm pouca fé podem rejeitar os preceitos da moralidade. Buddha, como Lucrécio, sentia que o mundo tinha a ganhar com o triunfo da lei natural sobre o sobrenaturalismo. Ao anunciar uma religião que proclamava que todo homem podia obter a salvação por si mesmo, sem a mediação de sacerdotes e sem referência a deuses, ele aumentava o respeito pela natureza humana e elevava o tom da moralidade. “É uma ideia tola pensar que outro ser pode causar nossa felicidade ou nosso sofrimento”. Depois que Buddha fez seu 51 trabalho, a crença na permanência e na universalidade da lei natural tornou-se quase um instinto na mente indiana. Veremos (. . . . .) que o mundo da experiência, de acordo com Buddha, não requer Deus algum para a sua explicação. A lei do carma é suficiente. A ideia do Mais Elevado está implícita, mas não ela não é uma questão de demonstração lógica. Assim, eruditos, filósofos e mesmo religiosos ocidentais em quem prevalece uma honesta imparcialidade sentem-se profundamente atraídos pelo pensamento budista. E hoje há um claro renascimento da vitalidade do budismo no Oriente. Na Birmânia [atual Mianmar], em 1955, o primeiro-ministro U Nu cumpriu um papel chave ao convocar um grande conselho de budistas de muitas terras, um evento benéfico que acompanha o despertar do espírito nacionalista no Oriente. A história ocidental teria sido muito menos sangrenta, se tivesse havido uma influência semelhante no momento em que nasceram as nações ocidentais. A Birmânia tem sido há muito tempo uma terra em que há fé no budismo prático. Talvez o melhor relato sobre como o budismo permeia e refina as vidas das pessoas simples que vivem nas pequenas vilas comunitárias do Extremo Oriente seja a obra “The Soul of a People” (“A Alma de um Povo”), de Fielding Hall. Hall foi à Birmânia durante a dominação britânica do país, permanecendo lá como administrador civil. Ele conta em seu livro que não podia evitar ficar impressionado pela serenidade do povo. Observando, ele descobriu que o temperamento do povo birmanês era uma herança budista. Naturalmente, como qualquer outra religião popular no mundo, o budismo adquiriu a sua quota de elementos sobrenaturais. Maravilhas rodeiam o nascimento, a vida e a morte de Sakiamuni. Fielding Hall comenta: Portanto, à primeira vista parece que de todas as crenças nenhuma é tão cheia de milagres ou tão fértil em elementos sobrenaturais quanto o budismo, mas isto é, na verdade, o oposto da verdade. Porque o budismo não deve coisa alguma ao sobrenatural. Ele se opõe, em sua própria essência, a tudo o que vai além do que podemos observar das leis terrenas, e o milagre nunca é usado como evidência da verdade de nenhum axioma e de nenhuma doutrina. Se todos os fatos sobrenaturais fossem apagados das crônicas da fé, o budismo iria continuar exatamente como é, até mesmo para o menos perceptivo dos seus seguidores. A autoridade do seu ensinamento não perderia força alguma. A grande figura do instrutor seria até reforçada se os enfeites do miraculoso fossem afastados, de modo que ele permanecesse diante do mundo como viveu. Ele ganharia força não só aos nossos olhos, mas também aos olhos dos que os seguem. Porque Buddha não foi um profeta. Ele não foi mensageiro de nenhum poder situado acima deste mundo, nem 52 revelou as leis de um tal poder. Ninguém veio sussurrar no seu ouvido os segredos da eternidade, ou mostrar a ele onde estava a verdade. Ele não entrou na presença do Desconhecido através de algum transe ou de alguma visão, para voltar de lá cheio da sabedoria de algum outro mundo. Ele tampouco ensinou a adoração de deus algum, e de nenhum poder. Ele não fez ameaças de vingança contra desobediência, ou promessas de perdão para os penitentes. Ele não falou de algum inferno eterno para aqueles que se recusassem a segui-lo, nem de um céu fácil de obter para os seus seguidores (......). Nada é mais claro que isso; que para o budista o seu mestre foi apenas um homem como ele mesmo, fraco e sujeito a cometer erros, mas que aperfeiçoou a si mesmo; e assim como fez o seu instrutor, assim também ele pode fazer. Para isso basta que ele observe as leis da vida que o Buddha mostrou ao mundo. Estas leis são tão imutáveis quanto as leis de Newton, e, como elas, têm uma origem situada além do nosso campo de observação. Como os intérpretes ocidentais têm uma simpatia natural pela desconfiança de Buddha diante do sobrenaturalismo, a prudência dele em relação à imortalidade da alma tem sido vista com especial entusiasmo por parte de comentaristas europeus. Eles sentem, como Buddha, que o mundo dos crentes religiosos tem sido muito desorientado e prejudicado por descrições dogmáticas da vida após a morte. Parece provável, no entanto, que estes ocidentais divirjam de Buddha num ponto fundamental: enquanto eles se inclinam a defender o ponto de vista de que a ideia da imortalidade é uma superstição a ser abandonada inteiramente, Buddha parece hacer sentido apenas que a certeza arrogante deve ser substituída por uma abertura mental que espera por uma confirmação autêntica das concepções transcendentais. A atitude de Buddha diante de perguntas diretas sobre a alma é bem ilustrada pela sua recusa a responder todas as questões do monge Vacchagotta. A história deste encontro e a explicação feita por Buddha para Ananda, seu discípulo, é repetida na obra “The Creed of Buddha”40 , de Edmond Holmes: ..... O monge andarilho, Vacchagotta, foi até onde estava o Ser Glorioso. Quando chegou perto, ele o saudou. Depois de saudá-lo e trocar palavras amáveis com ele, sentou-se perto dele. Ao sentar-se perto dele, o monge andarilho Vacchagotta falou ao Ser Glorioso, dizendo: “Como fica a questão, venerável Gautama, o Eu Superior existe?” 40 “The Creed of Buddha”, Edmond Holmes, The Bodley Head-London, first published 1908, reprinted 1949, 260 pp. (NT) 53 Quando ele disse isso, o Ser Glorioso permaneceu em silêncio. “Então, venerável Gautama, o Eu Superior não existe?” E o Ser Glorioso ainda manteve silêncio. Neste ponto o monge andarilho Vacchagotta levantou e afastou-se. Mas o venerável Ananda, quando o monge andarilho Vacchagota já ia a uma certa distância, disse ao Ser Glorioso: “Por que, senhor, o Ser Glorioso não deu uma resposta às perguntas feitas pelo monge andarilho Vacchagotta?” “Se eu, Ananda, quando o monge andarilho Vacchagotta perguntou-me, ‘O Eu Superior existe?’, tivesse respondido ‘O Eu Superior existe’, então isto, Ananda, teria confirmado as doutrinas dos Samanas e Brâmanes que acreditam na permanência. Se eu, Ananda, quando o monge andarilho Vacchagotta perguntou, ‘O Eu Superior não existe?’, tivesse respondido, ‘O Eu Superior não existe’, então isto, Ananda, teria confirmado a doutrina dos Samanas e Brâmanes que acreditam na aniquilação. Se eu, Ananda, quando o monge andarilho Vacchagotta perguntou-me, ‘O Eu Superior existe?’, tivesse respondido, ‘O Eu Superior existe’, teria isso sido útil para o meu propósito, Ananda, produzindo nele a compreensão de que todas as existências são Não-Eu?” “Não teria, senhor.” “Mas se eu, Ananda, quando o monge andarilho Vacchagotta perguntou-me, ‘O Eu Superior não existe?’, tivesse respondido, ‘O Eu Superior não existe’, então isto, Ananda, só teria feito o monge andarilho Vacchagotta ser lançado de uma desorientação para a outra: ‘Meu Eu Superior, ele não existia antes? Mas agora ele não existe mais!’.” O dr. Holmes comenta: Nesta história Buddha dá duas razões para recusar- se a responder a pergunta de Vacchagotta. O pedido é que ele responda Sim ou Não. Seja qual for a resposta que ele dê, alguma escola de metafísica seguramente dirá que ele pertence a ela. E seja qual for a resposta que ele dê, ele seguramente deixará Vacchagotta mais confuso. 54 Hoje, em um mundo assustado pela desagradável colheita do seu próprio materialismo, talvez seja possível chegar a uma avaliação mais correta do ponto de vista de Buddha em relação à imortalidade da alma. Já que a polêmica científica contra todas as concepções metafísicas e místicas está praticamente esgotada, devemos agora ser capazes de observar com atenção a ideia de que Buddha tomou exatamente a mesma posição, em relação à imortalidade, que encontramos em Platão, e que o cuidado de Buddha ao expor este ensinamento é dobrado nas palavras de Sócrates, quando ele fala a Glauco, em “A República”: Admito perfeitamente a dificuldade de acreditar que em todo homem há um olhar da alma que, quando perdido e ofuscado por outras atividades, é por estas atividades purificado e re-iluminado; e que é mais precioso em muito que dez mil olhos corporais, porque só através dele a verdade é vista. Ora, há dois tipos de pessoas: o primeiro tipo concordará com você e tomará suas palavras como uma revelação; e para o outro tipo suas palavras serão completamente destituídas de significado; estas pessoas as considerarão histórias à toa, porque não veem qualquer tipo de ganho a ser obtido por elas. . . . . Em “Fédon”, Sócrates diz, também como Buddha: Eu pediria a você que pense na verdade e não em Sócrates; que concorde comigo, se lhe parece que estou falando a verdade; e se não lhe parece, que resista de todos os modos, para que eu não engane a você nem a mim mesmo em meu entusiasmo, e como a abelha, deixe meu ferrão em você antes de morrer . . . . Não pretendo afirmar que a descrição que fiz da alma em suas mansões é exatamente verdadeira −; um homem sensato dificilmente diria isso. Mas digo que na medida em que a alma seja demonstrada como imortal, ele pode atrever-se a pensar − de um modo que não é inadequado nem inútil − que algo semelhante é verdadeiro. A tentativa é gloriosa. E ele deveria confortar-se com palavras como estas, e por este motivo eu contei a história. Portanto, eu digo, um homem deve estar com uma boa disposição em relação à sua alma...... Parece justo dizer que homens como Buddha e Platão são antes de mais nada professores. A sua meta é uma comunicação efetiva, e não a obtenção de seguidores e crentes, e os seus discursos sempre refletem este interesse. Quando eles condicionam algo ou expressam dúvidas, podem estar fazendo isso mais por uma preocupação com o modo como serão compreendidos, do que como um relato das suas próprias convicções. É um erro, portanto, tentar uma avaliação final dos pontos de vista seja de Buddha, de Platão, de Jesus ou de qualquer outro instrutor de filosofia religiosa, por meio de uma análise literal dos registros impressos do que ensinaram. 55 No caso de Buddha, há razões para pensar que, como Jesus, ele ensinou uma doutrina interna e mais elevada para seus discípulos imediatos. Geralmente se considera que o que se poderia chamar de “budismo popular” foi preservado pela escola do Sul ou do Ceilão [Sri Lanka], e é a partir das escrituras do budismo do Sul que eruditos ocidentais tiveram a impressão de que Buddha negava a imortalidade. Rhys Davids, o orientalista cujas interpretações são melhor conhecidas no Ocidente, escreveu (citado por Edmond Holmes): “Não há, em qualquer sentido, passagem de uma alma, ou de um Eu, de uma vida para a outra. Toda a visão deles [dos budistas] sobre a questão é independente das teorias da alma honradas pela tradição e defendidas em comum por todas as outras crenças.” Davids também conclui que “a morte, a completa morte” é o resultado do Nirvana. Holmes está convencido de que esta é uma mutilação e uma interpretação completamente errada da filosofia budista, e o seu capítulo em “The Creed of Buddha” que está dedicado a corrigir o erro parece uma discussão bem elaborada do significado central dos ensinamentos de Buddha. A versão do Sul, em resumo, afirma que no momento da morte as tendências e traços de caráter do homem passam a ser resíduos psíquicos chamados pelos budistas de skandhas, e que estes são tudo o que permanece do homem que morreu. Os skandhas (transmissores de carma) renascem então em alguma outra pessoa ou indivíduo, mas sem qualquer elo de conexão que estabeleça uma continuidade do Eu. O budismo do norte, por outro lado, embora seja exuberantemente metafísico na forma, parece ter preservado o ensinamento dado por Buddha a seus arhats, ou discípulos iniciados, e nele vemos que é inequivocamente ensinada a doutrina de uma entidade permanente que une todas as encarnações de um único indivíduo. Esta última é a visão adotada por Holmes: A diferença entre estas duas concepções de causalidade moral, e entre as duas concepções derivadas de imortalidade, é tão larga quanto profunda. A pergunta que devemos fazer a nós mesmos em relação à concepção budista é bastante simples: “Será que a identidade entre eu e o herdeiro do meu Carma, ou entre eu e o homem cujo Carma eu herdo, é tão real quanto a identidade entre o meu eu de hoje e o meu eu de dentro de vinte anos (se eu viver até lá), ou entre o meu eu de hoje e o meu eu da minha infância?” Se não for tão real, a doutrina da reencarnação é apenas um absurdo desde os dois pontos de vista − ; o do idealismo oriental e o da ciência ocidental. Mas, se for real, a doutrina faz muito sentido do ponto de vista do idealismo oriental; e embora a ciência ocidental não possa aprová-la, é igualmente certo que não pode rejeitá-la, porque a questão necessariamente escapa do seu alcance. Holmes mostra a seguir que a doutrina do Carma, o ensinamento-chave do budismo, fica praticamente sem sentido quando separado da ideia de um eu superior reencarnante, e ele confirma o seu argumento ao apontar para o fato de que o hinduísmo é inequívoco ao ensinar sobre o desenvolvimento progressivo da alma através de sucessivas corporificações ou encarnações; e que Buddha não renunciou de modo algum a todo o hinduísmo, mas apenas ao que lhe parecia ser abuso e excesso. Nas palavras de Holmes: 56 A improbabilidade de que um grande Instrutor rompesse completamente com o mais alto e mais profundo pensamento do seu país e da sua época é muito grande. O grande Instrutor é sempre um reformador, tanto quanto um inovador; e reformar é voltar a um ideal que havia sido esquecido, ou de alguma maneira obscurecido (.....). Se assumirmos o ponto de vista oposto a este, e presumirmos que o ensinamento de Buddha era direta e fundamentalmente destruidor das ideias expressadas nos Upanixades, vemos que todo o sistema cai em pedaços e a sua sabedoria se torna um absurdo impensável. Com isso, o que era até aqui altamente provável parece aproximar-se do nível de certeza. De qualquer modo, se não pudermos dizer que a crença mantida por Buddha, embora não abertamente professada, era o mesmo idealismo espiritual da Índia antiga, nós ainda poderemos dizer que a hipótese contrária − a de que a crença de Buddha era a negação direta daquela elevada fé − pode ser facilmente desmentida. Os esforços que são feitos para colocar o ensinamento de Buddha na mesma linha que o dogmatismo negativo da “religião da ciência” seriam ridículos, se não fossem, em um certo sentido, patéticos. Porque, na verdade, eles não comprovam nada, exceto a profundidade do abismo que separa o pensamento oriental do pensamento ocidental. Devemos reconhecer, com o dr. Holmes, que o elemento tendencioso na admiração ocidental pelo budismo, com base em que esta religião apoia as inclinações antimetafísicas dos que têm mentalidade científica, tem pouco apoio real nos ensinamentos de Buddha. Mas isso não elimina todos os motivos para que haja um interesse em budismo entre os que têm formação científica. Tampouco se deve supor que a simpatia atual pelo budismo entre os ocidentais mais reflexivos, inclusive pioneiros em psicoterapia, seja limitada aos atrativos do agnosticismo. O livro de Holmes tem outra passagem que mostra um autêntico terreno em comum entre budismo e o pensamento científico, em relação ao princípio da evolução: Os avanços científicos ocidentais, em tudo aquilo em que eles tiveram alguma importância filosófica, podem ser divididos em dois grandes grupos −; a descoberta (digamos assim), no plano físico, de que o Reino da Natureza está sob o governo da lei (uma concepção da Natureza que a ciência deve ter trazido inconscientemente para o seu trabalho de investigação, e que tornou esse trabalho possível); e a descoberta posterior de que todas as leis da Natureza estão subordinadas à sua lei central do desenvolvimento ou crescimento. (Falamos do 57 crescimento de um organismo individual; e do desenvolvimento de um tipo. Como a alma é tanto individual como universal, qualquer um destes termos pode ser aplicado a ela.) Estas duas descobertas foram antecipadas por Buddha. Mas elas foram feitas por ele − ou pelos homens que plantaram o que ele colheu − não no plano físico, mas no espiritual, no plano da vida interna do homem. Buddha compreendeu, como nenhum homem antes (ou depois) dele jamais fez, que a alma é uma coisa viva, e que, como tal, ela fica sob a lei do crescimento, que tudo permeia e tudo controla (......). Ele ensinou aos homens que, se colocassem suas vidas em harmonia com certas leis fundamentais da Natureza, as suas almas iriam crescer − assim como crescem as lavouras bem cuidadas − vigorosamente e de modo saudável; e que o sentido de bem-estar que acompanha o crescimento bem-sucedido, que, quando compreendido conscientemente, é a verdadeira felicidade, seria deles (......). Carregado pela convicção de que o que um homem faz reage, natural e necessariamente, sobre o que ele é, e assim afeta definitivamente o crescimento da alma e o seu consequente bem-estar; e cheio da convicção de que a conduta molda o caráter, e o caráter é destino −, Buddha fez um chamado a cada ser humano para que tome sua vida em suas próprias mãos, e para que dirija ele mesmo o processo do seu crescimento. Sempre que a ciência tem qualquer utilidade para os seres humanos como almas, o seu princípio último está descrito nestas palavras. É este princípio que guia a nova psicoterapia, e que guia na realidade todo pensamento relacionado com os esforços do ser humano por melhorar sua vida, como indivíduo e na comunidade. Finalmente, o que dizer sobre o budismo na Índia, a terra da sua origem, e sobre a atitude indiana em relação a este reformador histórico da religião hindu? O dr. Radhakrishnan conclui o seu capítulo sobre budismo (em seu livro “Indian Philosophy”) com uma seção intitulada “O Êxito do Budismo”, na qual ele destaca que a divulgação do budismo na Índia foi tão rápida que, em apenas duzentos anos, foi reconhecido como religião de estado. Este destacado erudito atribui o florescimento do budismo à força de Buddha como ser humano, ao seu ensinamento sobre a Lei, e ao ideal de fraternidade universal. Radhakrishnan escreve: Teria sido uma surpresa se a sua magnanimidade e sua elevação moral não atraíssem a imaginação dos povos. A ideia da fraternidade universal questionava e enfraquecia o crescente rigor da divisão em castas (......) Buddha justificava a prática do bem mesmo para aqueles que não 58 acreditavam em um Deus pessoal. Nenhuma outra ética independente nos dá uma mensagem mais estimulante de benevolência universal. Em uma época em que a prática de sacrifícios sangrentos ainda não havia sido abandonada, o ensinamento da misericórdia para com toda a criação teve um efeito tremendo. (......) Em nossos ouvidos, nenhuma voz trovejou como a de Buddha sobre o caráter majestoso da bondade. Foi o ideal flamejante da justiça que ajudou o budismo a vencer como religião (......). O budismo teve tanto sucesso porque era uma religião de amor, dando voz a todas as forças inarticuladas que estavam trabalhando contra a ordem estabelecida e a religião cerimonial, e se dirigia aos pobres, aos deserdados e situados nas castas inferiores. No entanto, o budismo não sobreviveu na Índia até hoje, embora tenha obtido bases seguras entre os bilhões de asiáticos que vivem em Sri Lanka (antigo Ceilão) , Birmânia (Mianmar), China, Tibete e Japão. Finalmente houve uma perseguição ativa dos budistas pelos brâmanes e por alguns dos príncipes indianos, e as divisões e cisões entre os próprios budistas foram uma influência debilitadora. Inicialmente, os budistas foram afastados das grandes cidades. Depois, com a invasão mongol, o declínio do budismo indiano foi acelerado até que, durante o século 16, a presença do budismo desapareceu completamente da Caxemira, de Bengala, e do sul da Índia. Apesar disso, o budismo é hoje uma das crenças com maior número de seguidores em todo o mundo.41 Além disso, é possível que um renascimento do interesse no budismo ocorra na Índia, como resultado da influência de Gandhi e devido a outras causas. Em 1924, quando Gandhi foi libertado pelos ingleses depois de uma das suas numerosas prisões, ele decidiu fazer sua primeira aparição pública no dia da celebração do aniversário budista. Na ocasião, ele declarou: ... Esforço-me por popularizar a verdade pela qual Gautama Buddha viveu e morreu (......) . Gostaria de dizer o que eu creio sobre o budismo. Para mim, ele faz parte do hinduísmo. Buddha não deu ao mundo uma nova religião; ele deu uma nova interpretação. Ele ensinou ao hinduísmo sobre não tirar a vida, mas dá-la. O verdadeiro sacrifício não era para ele sacrificar os outros, mas a si mesmo. O hinduísmo fica ressentido com qualquer ataque aos Vedas. Ele encarou a nova interpretação como um ataque. Portanto, ao mesmo tempo que aceitava a verdade central do ensinamento de Buddha, ele 41 Segundo o Almanaque Abril de 2007 (Editora Abril, SP, p. 281) , o cristianismo possui cerca de 2,1 bilhões de seguidores; o islamismo, 1,3 bilhões; o hinduísmo, 878 milhões; o budismo, 378 milhões. Estes números aproximados sugerem que, quanto ao número de seguidores, o budismo é atualmente a quarta maior religião do mundo. (NT) 59 lutou contra o budismo vendo-o como um novo culto contrário aos Vedas. Tornou-se moda hoje em dia em alguns setores dizer que a queda da Índia começou quando ela aceitou os ensinamentos de Buddha. Isto é o mesmo que dizer que amor e piedade, se forem suficientemente praticados, irão degradar o mundo. Em outras palavras, de acordo com os críticos, o mal deveria triunfar ao final. A minha crença inalterável é que a Índia não caiu por aceitar o ensinamento de Gautama, mas porque não viveu à altura deste ensinamento. Os sacerdotes têm sempre sacrificado os profetas. Para serem divinos, os Vedas devem ser uma palavra viva, sempre crescendo, sempre expandindo-se, e sempre respondendo a novas forças. Os sacerdotes agarraram-se à letra, e perderam o espírito. Mas não é necessário perder a esperança. A reforma que Buddha tentou nunca foi julgada com justiça. Dois mil e quinhentos anos não são nada na vida do mundo. Se a evolução da forma demora períodos imensos de tempo, por que deveríamos esperar por revoluções na evolução do pensamento e da conduta? E no entanto a época dos milagres ainda não passou. Assim como ocorre com os indivíduos, ocorre com as nações. Penso que é perfeitamente possível que os povos sejam subitamente convertidos e elevados. O caráter súbito é apenas aparente. Ninguém sabe há quanto tempo o fermento está em ação. As forças mais potentes não são vistas, nem sequer sentidas, durante muito tempo. Apesar disso, elas estão seguramente trabalhando. A religião, para mim, é uma fé viva na suprema Força Invisível. Esta Força já confundiu a humanidade antes, e está destinada a confundir-nos outra vez. Buddha ensinou que devemos desafiar as aparências e confiar no triunfo final da Verdade e do Amor. Este foi o presente incomparável que ele deu ao hinduísmo e ao mundo. Ele nos ensinou também como fazer isso, porque ele viveu o que ensinou. A melhor propaganda não está em distribuir panfletos, mas consiste em cada um de nós tentar viver a vida que gostaríamos que o mundo vivesse. Assim, Gandhi se soma a Holmes ao afirmar que Buddha ensinou com base no grande conteúdo filosófico dos Upanixades, a religião espiritual da antiga Índia, mas com um novo espírito − um espírito de fraternidade e igualdade, e de amor por toda vida. 60 É este espírito que sempre renova o interesse em Gautama Buddha e em sua missão no mundo. É um espírito que não pode jamais morrer, mas sempre renascerá naqueles que sentem − ainda que apenas um pouco − aquilo que Buddha sentia pelo mundo ao seu redor. 000 Final de “O Dhammapada”. 000 Sobre o mistério do despertar individual para a sabedoria do universo, leia a edição luso- brasileira de “Luz no Caminho”, de M. C. Com tradução, prólogo e notas de Carlos Cardoso Aveline, a obra tem sete capítulos, 85 000
Aquele que conhece seus nascimentos anteriores, que vê o céu e o inferno, que atingiu o fim dos nascimentos e atingiu a perfeição do insight, o sábio que atingiu o ápice da excelência espiritual – eu chamo ele de homem santo.
Este verso define um "brâmane" não pela casta de nascimento, mas pela sua realização espiritual. Descreve alguém que alcançou os Três Conhecimentos: a lembrança de vidas passadas, a compreensão dos reinos de existência (céu e inferno), e a erradicação completa das impurezas mentais.
Essa pessoa atingiu o fim do ciclo de renascimentos (samsara) através de um conhecimento perfeito e insight meditativo, cumprindo tudo o que é necessário para a libertação. É um sábio que transcendeu a ignorância e o sofrimento, vivendo em paz e pureza.
Como você percebe a conexão entre conhecimento e libertação neste verso?